sábado, 9 de fevereiro de 2019

Vida é substantiva, não aposto

ARTIGO publicado no site de Plurale, em 09.02.19

https://www.plurale.com.br/site/noticias-detalhes.php?cod=16649&codSecao=2

Vida é substantiva, não aposto

Quanta custa a indenização de uma propriedade destruída? O cálculo é trabalhoso, porém simples e factível. Agora vamos pensar em termos de patrimônio imaterial. Segundo a Unesco (em português - Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas), o Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes. Exemplos: O Círio de Nazaré, do Pará, o frevo pernambucano etc. Em termos monetários não dá pra calcular.

E o sonho? Quanto custa um sonho?

“Persegui a luz? / Mal segui-a, tendo / onde o sonho pus, / uma flor morrendo...” (Alphonsus de Guimaraens Filho). Esta citação de Tânia Du Bois, em seu blog, vem bem a calhar.

É possível mensurar o valor do sonho de Santos Dumont, materializando o desejo de o homem voar – ao longo de sua linha do tempo? Quanto de ideias, projeções, delírios e fantasias se gastou? Alguém consegue montar uma fiel equação sobre tudo o que passou pela cabeça de um menino de apenas 4 anos de idade, da sua preparação à primeira corrida de kart, em 1978, em Le Mans, na França? E desta estreia, aos 18 anos, até o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália, aos 34 anos, na fatídica corrida de 1994? Equipamentos esportivos à parte, como mensurar a quantidade de adrenalina produzida? E, ainda que isto fosse possível, qual o peso exato desta adrenalina no coração da pessoa em questão? E para a legião de fãs que Ayrton Senna conquistou? Para o país? Para o mundo?

Há coisas tangíveis em nossa vida. A priori, tudo o que se pode tocar é tangível – daí a expressão valor tangível, mensurando “a coisa”. Mas e aquilo que não é “coisa”, de que trata o substantivo feminino?

Quanto custa o sonho de um menino, louco por uma bola de futebol? E se esse menino nascer em Três Corações, no interior das Minas Gerais, for pra Bauru junto com os pais, e depois jogar em uma dos maiores times do país? E se, de quebra, esse menino der tão certo que será convocado pra Seleção Brasileira, ganhar o campeonato mundial de futebol e desabar em choro, em seus parcos 17 anos, no peito amigo do goleiro Gilmar? Como “monetizar” (palavra da moda) estas lágrimas? Como trazer “a valor presente” o que esse menino ainda haveria de ganhar vida afora? Afinal, como se calcula o valor tangível e o intangível de Pelé, que se transformou em algo muito além de um esportista?

Qual o valor do sonho de alguém que trabalhou 30, 40, 50, às vezes a vida inteirinha para, na velhice, conseguir um naco de terra no interior pra erguer uma casa com uma horta nos fundos, um jardim sempre florido a contemplar? Quanto custa o sonho de se montar uma pousada, em lugar bucólico, para saborear os últimos anos de sua vida – que se imagina sejam ainda suficientes para a purificação da alma e pacificação com a natureza?

Como é que se quantifica o sonho de um menino de rodar 2.000, 3.000 Km para jogar no time do Zico? Que sonhos passam pela cabeça de um gurizinho de 14, 15 anos, de vestir a camisa rubro-negra, ser aplaudido em um Maracanã lotado ou de ter a mesma sorte do Vinícius Jr e brilhar na Europa? Se não dá para calcular o sonho de um menino, tampouco multiplicar isto por 10.

Sonhos não são coisas. A vida precisa ser substantiva, não um aposto entre uma tragédia e outra, porque não é coisa que se compra. A vida só vale se os sonhos forem sustentáveis, ainda que imateriais.

sábado, 13 de outubro de 2018

Brasil, 29 de outubro de 2018.

Evolução ou Criacionismo? Independência ou Colônia? Português ou Espanhol? Monarquia ou República? Emilinha ou Marlene? Rock ou MPB? Beatles ou Rolling Stones? Governo Civil ou Militar? Presidencialismo ou Parlamentarismo? Chico ou Caetano? Pagode ou sertanejo? Carro a gasolina ou a álcool? Corinthians ou Palmeiras? Flamengo ou Fluminense? Futebol ou vôlei? Bike ou automóvel? Férias na praia ou no campo?

Sem entrar no conceito do pensamento maniqueísta, não foram poucas as vezes que o brasileiro teve de se decidir entre duas alternativas. Isto posto de maneira reducionista, para que todos acompanhem a diálogo aqui sugerido... E uma vez mais precisamos nos decidir, nas eleições presidenciais, pois que chegamos ao 2° turno e... agora só temos a opção A e a B em termos de nomes/propostas.

Eu que comecei a votar ainda no período Arena x MDB (com um monte de políticos faz-de-conta), confesso que ando muito preocupado uma vez que os tempos atuais não estão fáceis. A sensação é que a luta das últimas décadas pouco resultado surtiu no sentido de amadurecer o país. Neste outubro de 2018 temos de um lado aquele jeitinho de fazer política rechaçado por grande parte da população, que o associa umbilicalmente à corrupção – com fartos motivos apresentados nestes últimos anos pela Justiça – e, de outro, um jeito de querer governar à base do tacape e da borduna, com odes à tortura, repressão e obscurantismo.

O inconveniente “nós contra eles”, de autoria amplamente conhecida, levou a população à exteriorização de um sentimento primitivo, hoje expresso de forma perigosa. Perdeu-se o mínimo de razoabilidade – se é que um dia existiu – a discussão política, tão necessária, aliás, em um mundo moderno e civilizado. O “nós contra eles”, irresponsavelmente lançado, só prejudicou o Brasil. A máxima de “dividir para reinar” é um pensamento muito sofisticado para a maioria da população brasileira, que não consegue abstrair lição alguma disto. Daí, levar a ferro e fogo o “olho por olho, dente por dente”, dando vazão a instintos animais. É a explosão do “id”, na formulação da personalidade freudiana.

Verdadeiras hordas saem às ruas não para defender ideais, mas para tentar aniquilar “inimigos”. E aqui vale tudo, pois em meio a esta súcia a perspectiva é que o “grande inimigo” é o próprio povo, ou melhor, “o outro lado do povo, que não quer enxergar” a verdade imposta e por isso mesmo “precisa ser aniquilado”.

Desnecessário dizer que a sociedade está doente. Mas em meio a tanta sujeira material e espiritual ( ! ) o corpo doente recebe um bálsamo. Refiro-me à campanha criada pela agência Energy BBDO e colocada no ar pela rádio CBN, que mostra, em vídeo, a barbárie através da guilhotina, forca, fuzilamento etc e, no final, convida a uma reflexão sobre o ódio e traz a mensagem “precisamos aprender a discordar”.

Se a campanha viralizar, na velocidade de certas “fake News”, ainda haveremos de contabilizar muitos vivos, entre os mortos e feridos, no dia 29 próximo.

domingo, 17 de junho de 2018

Perdeu, Ladrão !

Sabe aquela vontade que tínhamos de assistir aos jogos do Brasil e que nos foi surrupiada nos últimos tempos? Ela voltou. De forma mágica e pragmática ao mesmo tempo. Como assim, véi? - alguém há de perguntar... Mágica, porque torcer pelo Brasil é um sentimento inato dos nossos irmãos. É coisa de brasileiro. De gente que nasce no Brasil, que cresce no Brasil, que se apaixona tanto pelo Brasil que até briga e dá porrada a “três por dois” em um monte de gente da terra pra reivindicar coisas que lhe são de direito. Mas não me venha alguém de fora meter o bedelho por aqui e querer falar mal do país também, como se dele fosse, que aí a gente vira bicho e mete porrada no intruso, defendendo as cores do nosso coração. É tipo família, sabe? A gente conhece bem “o eleitorado”, briga, briga e briga internamente, pra tentar corrigir o que acha de errado. Mas se vier alguém de fora e quiser falar mal dos nossos, ah... comprou uma briga feia.

Esta mágica pelo Brasil que nos apaixona, que nos emociona, também é extensiva a tantos brasileiros que adotaram a nossa terra, o nosso chão, o Pavilhão Nacional, e dele faz a sua Pátria. Uma vez – eu, ainda adolescente – ouvi isto de um “ex-gringo”, em uma discussão sobre brasilidade com um patrício: “Saiba que sou mais brasileiro que você. Porque você nasceu aqui e é brasileiro por acaso, mas eu escolhi ser brasileiro e vou defender o Brasil até o fim da minha vida!”.

Saindo do mágico e indo para o pragmático: a Seleção de hoje personifica o espírito brasileiro. A Comissão Técnica capitaneada pelo Tite é um exemplo daquilo que nós – pessoas de bem – queremos para o Brasil: vitórias conquistadas com honestidade, trabalho com transparência e satisfação de ver resultados construídos com esforço e dedicação. O time que logo mais entrará em campo é produto desta filosofia: transparência. E por isto mesmo hoje jogadores e torcedores têm orgulho de torcer pelo Brasil. Mas... Peraí. Agora não tem mais nem menos. Aos ladrões de sonhos, que um dia se fizeram de “donos” das cores da Bandeira que vão tomar bem no fundo da sua cozinha... um belo quentão pra esquentar a alma porque isto pode lhes curar certas dores. Aos ladrões de sonhos, amargos, que renegaram as cores da Bandeira como que se nada do que representa o país pudesse ser incorporado ao dia a dia de quem gosta do Brasil que vão tomar no devido buteco um copo de vinagre. Ladrões do amarelo, ladrões do verde, ladrões do azul e do branco da paz que a todos devemos nos permitir, informo: vocês perderam. Ladrões de sonhos, que hoje querem desfilar “de camisa preta igual a do goleiro”, como certo jornalista militante escreveu, “pra fugir da camisa amarela do pato”, perderam. Gente que pinta o Brasil com as suas cores, querendo confundir a Nação, colocando um movimentozinho qualquer acima de uma Nação, lamento: Você perdeu, imbecil.

Não estou aqui, hoje, pra discutir o amarelo “do ouro”, “do brazão da família Orleans e Bragança”, ou o que representa lá na China... Também não estou com paciência pra discutir com nenhum cretino fundamental (parafraseando Nelson Rodrigues) o “preto” como cor das milícias negras, de triste inspiração fascista, ou o “verde” dos integralistas. Eu só sei que o povo brasileiro hoje está com mais tesão pela seleção do que tinha nas duas ou três últimas copas.

Nestes últimos dias passei por Santa Catarina e vi, de soslaio, também no Paraná, muitas bandeiras verde-amarelas remetendo ao “futebol da Copa”. Aqui no meu bairro, em Sampa, até uma senhorinha evangélica, simpática e sempre na dela, decorou a fachada da sua papelaria com bandeirinhas verde-amarelas. Passei por vários postos de combustível, bares e restaurantes nos 700 KM que separam São Paulo e Floripa e muitossss deles decorados. Parei num desses para almoçar, na volta, assistindo ao jogo de estreia da Rússia. Nas mesas, o povo palpitava, comentando o “jogo russo”, sem provavelmente nunca ter visto um russo jogar bola na vida. E, claro, se falava do jogo de domingo do Brasil também.

Vejo algumas crianças e muitos adultos (coisa que não via há tempos) de camisa amarela, com o nome do Neymar, do Paulinho, do Coutinho... Senhores ladrões de sonhos, vocês perderam. E vão tomar nos seus devidos butecos aquilo que lhes aplaca a raiva ou a sustenta – problema de vocês, porque a raiva com as cores da camisa é sua e não minha. O problema é todinho de vocês, insisto. E vocês perderam a guerra das cores, porque hoje tem Brasil, a Seleção canarinho acima das paixões, clubísticas inclusive. Hoje eu vou torcer pelo capitão Marcelo, um jogador fino de bola e com relevância no time, porque é a partir do espírito do Marcelo que se incendiarão os demais. Que venha a Suíça, a Costa Rica, a Sérbia e quem mais tiver garrafa pra trocar. E se algum Thiago da vida chorar, que seja de felicidade. #VaiBrasil.

sexta-feira, 16 de março de 2018

A dor e o mimimi ideológico

Marielle Franco, mulher, combativa, brasileira foi arrancada desta vida de forma cruel. E tudo o que é cruel torna-se INACEITÁVEL. Assim como eu considero inaceitável o penduricalho de adjetivos que se seguem para tentar justificar a “carona” pega por alguns mimizentos ideológicos.

Marielle foi covardemente assassinada porque era uma mulher combativa. Não essencialmente porque era negra ou favelada ou, ou, ou... Na história do Brasil muitos tombaram porque eram COMBATIVOS, porque metiam o dedo na ferida, porque denunciaram ESQUEMAS PODEROSOS ligados a tudo quanto é moral, social e legalmente errado. O cemitério está cheio de brancos, de amarelos, de vermelhos, de negros e de pardos.

Anderson Gomes, brasileiro, motorista, morreu porque estava dirigindo em hora e lugar errados. Mas, peraí: QUEM é que determina onde é o lugar “errado” e a “hora inconveniente”? QUEM é que controla território e relógio? Anderson não morreu porque era negro (porque não era), porque era do Partido “X”, ou “S” (porque não era), ou porque era LGBT (porque ao que tudo indica não era também). Morreu, igualmente assassinado de forma covarde, porque pra sustentar a família fazia bicos de motorista (e, nesses últimos dias, substituía um colega a serviço da vereadora) e estava ao lado da mulher combativa. À sua maneira, Anderson estava no seu combate, o combate diário de quem precisava segurar uma família em pé. E a sua perda será tão sentida quanto a de Marielle. Se duvidar pergunte isso à mulher dele, aos familiares e aos amigos mais chegados...

No momento de doloroso constrangimento nacional, pela PERDA e A FORMA com que ocorreu a tragédia, havia juízes tentando fazer uma ruidosa manifestação contra o corte de R$ 4.900, 00 de auxílio moradia, pessoas ligadas a partidos e a grupos políticos tentando tirar uma casquinha (proveito mesmo) da tragédia nacional pra sair tb na foto. Houve até um pretenso candidato a presidente da República que disse, textualmente, não iria se manifestar “pra não polemizar”. O País, e o Rio de Janeiro com especial atenção, estão derretendo debaixo de uma violência sem sentido e... a canalhice ideológica campeando solta. Canalhas ideológicos de plantão ora pegando “uma carona” na foto porque a mulher, combativa, era do Partido “S” ou porque se declarava negra e uma série de outras bobagens, de um lado, e canalhas ideológicos, de outro, tentando minimizar um fato da maior gravidade porque a mulher, combativa, não rezava a mesma cartilha política que estes.

O crime teve característica semelhante aos ocorridos em tempos sombrios de DITADURA (que para alguns sujeitos da mídia foi “apenas uma ditabranda”), em que o valoroso jurista Hélio Bicudo denunciou o esquadrão da morte. E o que se suspeitava, à época, apenas se confirmou depois. Um grupo de militares e paramilitares mandava executar a sangue frio todos quantos o “tribunal” deles julgasse “persona non grata”. Ao lado do cardeal D. Paulo E. Arns, Hélio Bicudo prestou um dos maiores serviços à causa democrática. Ele entrou de sola na questão: à época tratava-se de brasileiros x criminosos, sem mimimi. Não se discutia se o esquadrão era de direita, treinado no novo ou no velho oeste, se cultuava Mao ou Mussolini, pois o esquadrão era brutal, assassino e anti-Brasil. Por fim, acabou.

Mariella e seu motorista Anderson foram vítimas de um crime brutal, que fere as famílias desta mulher combativa e do homem igualmente batalhador, anestesiando amigos e provocando uma reação de indignação em todas as pessoas de bem: o Rio, o Brasil e a DEMOCRACIA foram golpeados. Se você não tem amor pela vida humana, que seja pelo Rio de Janeiro. Se não está nem aí com o Rio, então que seja pelo Brasil ou pela democracia, mas é hora de indignar-se. E de reagir. A democracia, o Brasil, o Rio de Janeiro, familiares e amigos de Anderson e Mariella carregarão uma dor no peito pelo resto das suas vidas. Uma dor que não passará, mas que pode ser minimizada pela atitude solidária de cada um de nós. Sem mimimi ideológico.

sábado, 27 de janeiro de 2018

A Balança está torta

ARTIGO publicado na Pluraleemsite

http://www.plurale.com.br/site/noticias-detalhes.php?cod=15961&codSecao=2

Por Nélson Tucci, Colunista de Plurale

Não dá para brigar com os números. A Oxfam – ONG que explicita em sua missão: “Contribuir para a construção de um Brasil justo, sustentável e solidário que elimine as causas da pobreza e da desigualdade” – divulgou dados no último dia 22, publicados por Pluraleemsite, revelando que 82% de toda a riqueza gerada no mundo fo i parar nas mãos do 1% mais rico do planeta. No mesmo documento mostrou que no Brasil apenas cinco pessoas têm patrimônio equivalente ao da metade da população; ou seja, 100 milhões de pessoas precisariam juntar todas as moedinhas, tábuas das palafitas, tomadas de 3 pinos, sandálias de borracha, aparelhos celulares e outros pertences para chegar perto dos cinco bilionários brazucas. Isto por hipótese, naturalmente, mas é algo que dá bem a medida do desequilíbrio.

O mesmo relatório divulgado afirma que o patrimônio somado dos bilionários brasileiros chegou a $ 549 bilhões em 2017, num crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, os 50% mais pobres do país viram sua fatia da renda nacional ser reduzida ainda mais, caindo de 2,7% para apenas 2%.

Apenas para fazer junto com o leitor um mero exercício: o que aconteceria com o Brasil se os tais cinco bilionários iluminados que têm patrimônio equivalente à metade da população, combinassem uma partida de golfe longe do solo pátrio e transferissem toda a grana pra lá, enquanto brincassem nos buraquinhos do campo? Parece algo tão impensável que pouquíssima gente deve ter de fato conjecturado isto. Voltemos ao mundo real, pois não.

A proporção de 5 x 100.000.000 é uma relação tão perversa, que não faz sentido, seja no viés puramente humano, seja sob a ótica do mercado concorrencial de um modelo capitalista. Deixar os ricos cada dia mais ricos e os pobres a cada dia mais pobres/miseráveis não sustenta nenhuma equação. Em tempo: acho provável que a fortuna amealhada pelos cinco cavaleiros seja legal e meritória. São pessoas argutas e capazes. Mas a distribuição da riqueza continua sendo indecente. O Brasil é um parâmetro às avessas, no quesito distribuição de renda.

Atualmente surge um novo “super rico” a cada dois dias, no mundo. Essa casta bilionária é composta por 2.043 membros. Do outro lado do gráfico, mas vivendo no mesmo planeta, a metade mais pobre da população mundial (cerca de 3,7 bilhões de pessoinhas) vive com renda entre US$ 2 e US$ 10 por dia.

Se a questão da sustentabilidade for discutida a sério pelos diferentes agentes da sociedade civil, governos e formadores de opinião, chegarão à conclusão de que é preciso dar um breque no atual modelo e rever conceitos. Não é com o atual status econômico-social que teremos um planeta mais equilibrado. Nem do ponto de vista humanitário, tampouco do capitalista que tem fome de mais e mais mercados a cada dia. E não há mercados sem consumidores, vamos combinar?

A balança está torta. E se faz necessário reequilibrá-la, pois se recordarmos o velho adágio de que o “cachimbo faz a boca torta”, ainda dá tempo de arremeter e fazer um pouco correto.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Haja fé !

“O que roubam do Brasil de dia, ele cresce à noite”. Em momentos como este que vivemos, a frase voltar a soar em meus ouvidos. Já vai longe a década de 60 do século XX, mas a lembrança volta. Quem dizia isso era meu pai. Ele não era propriamente um cientista social, tampouco militante político, mas como classe média-média de bom nível cultural, gostava de falar sobre política e economia. Com os adultos, é bom registrar, pois nessa época crianças eram afastadas das conversas “de gente grande”. E eu era apenas uma criança, que ouvia, com curiosidade, tudo o que o pai falava. Mas não ousava lhe questionar ou, menos ainda, lhe dirigir a palavra sem o prévio consentimento. Era uma outra época, de costumes inclusive.

Hoje, refletindo sobre este arquivo instalado em meu hardware, penso que ele era um otimista. À maneira dele, era um otimista. O Brasil, com seu extraordinário potencial de “país do futuro” (era assim que o chamavam), parecia ser uma fonte inesgotável de pujança econômica e de crescimento em vários setores e sentidos. Tal qual a água doce, pura da nascente, a sensação é que o Brasil cresceria infinitamente e de forma independente dos predadores de plantão e amigos do alheio. Nos engamos com a água e com o país. Analisar o que ficou pra trás, hoje com planilha de dados e internet, está fácil contestar o que se falava há 30, 40, 50 anos... Na época do ieieiê e da explosão da Jovem Guarda, o perfil do país era muito diferente. E no pós-golpe o nível de informação (na quantidade e na qualidade) era incomparável com o que temos hoje. Mas o fato é que o país mudou. Só pra ficarmos em único exemplo, com o financiamento dos “isteites” e de dinheiros correlatos, o Brasil passou a crescer forte na década seguinte. Os governos militares se jactavam em dizer que tinham melhorado a vida de todos e até o ministro da grana apelidou a fase de “milagre econômico”, com crescimento acima de 10% a.a. Eram os anos de chumbo, de brutal repressão política e restrição das liberdades (leia-se gente morta, desaparecida e desterrada), mas no contraponto havia dinheiro fácil e crescimento econômico.

Anyway... uma lufada passou pelo país. Com a felicidade de uns e infelicidade de outros.

Depois disso vieram a “democracia relativa”, a “abertura”, as eleições presidenciais indiretas e, por fim, as diretas. Pessoas não eram mais perseguidas, torturadas e desaparecidas com a mesma frequência e o país foi se modernizando e humanizando. Mas a turminha que controlava o “pudê” volta e meia protagonizava escândalos. Era muita maracutaia que se tinha notícia – já nos anos 1980 era deputado ganhando trocentas vezes na loteria, escândalo da mandioca (empréstimos do Banco do Brasil com juros subsidiados a pretexto de se plantar o tal tubérculo, mas não foi o que aconteceu) e tantos outros – que a gente até perde a conta.

O fato é que meu pai e a geração dele subestimou a capacidade roubativa (com licença para o neologismo) da brava gente brasileira que tinha as chaves do cofre. Vieram os anos 90 e... do governo Collor, de infausta memória, nem quero falar. O caso ainda é recente na história e certamente permeia a lembrança de grande parte da população. Na sequência houve privatizações nem sempre bem explicadas e o escândalo do mensalão, já neste século, que, aliás, só ficou “pequeno” comparativamente ao da Lava Jato, que ora vivenciamos.

É estarrecedor o que se ouve pelas esquinas do Brasil. Histórias que precisam ser checadas e outras que nos chegam em tempo real das tais delações premiadas. A sensação é que a sujeira ficou de tal maneira incrustrada que nunca mais vai sair. Ou seja, quanto mais se raspa, se lava, mais camadas são descobertas.

A minha dúvida agora é a seguinte: o que digo para os meus filhos (tenho 2 ainda menores)? Que o Brasil está sendo passado a limpo e que num futuro próximo estaremos todos felizes e satisfeitos ou... que tratem de arrumar as malas dentro em breve para tentar a vida em outro canto da Terra, porque a luta das gerações anteriores a eles foi em vão?

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A rosca. Com ou sem fim?

A estética da linguagem não pode ser a mesma daquela “estética televisiva” que tomei conhecimento, pela internet, no dia seguinte ao fato. Uma dançarina, ou atriz, ou modelo ou sei lá como a mulher se autoclassifica, porque desta nunca antes na história deste país eu tinha ouvido falar, “notabilizou-se” na telinha ao exibir o seu esverdeado orifício corrugado. Não do jeito que veio ao mundo, mas do jeito que o mundo a deixou. Na tv aberta.

A cidadã, pintada com as cores da bandeira nacional, eu suponho, ou homenageando o último campeão brasileiro de futebol (também poderia ser...), tinha as costas – dos pelinhos dos ombros à última covinha do derrière – decorada em verde escuro.

A dupla de apresentadores Nelson Rubens e Flávia Noronha estava apoiada por uma travesti cumprindo o papel de repórter cover e os três pediram à moça – que só tinha camada de tinta sobre o corpo – para dar uma abaixadinha, na frente da câmera. Ela não se fez de enrugada, digo, rogada, e desceu tudo. Na sequência, pediram a esta burlesca figura que fizesse o mesmo movimento , da abaixadinha, mas de costas.

Lembrando o que poderia ser o desfiladeiro do Arizona (nos EUA), o conhecido Grand Canyon, em uma escala de ... bem, em uma escala reduzida, a entrevistada lançou a profundeza de sua alma para o respeitável público conhecer.

Este escriba nunca teve vocação para ser crítico de cinema, de teatro e tampouco de tv. Mas como espectador vou me permitir entrar no assunto – entrarei exclusivamente neste, prometo – e opinar: nunca, desde os longínquos anos 60 do século passado, quando a tv ainda transmitia em preto e branco, eu lembro de ter visto algo tão grotesco. Escancarar o orifício, hoje já semi corrugado, para a câmera, em “rede nacional”, não é algo de se esperar. Não pelo menos para este velho homem de imprensa que se acostumou a ver na tv os desenhos da Turma do Manda Chuva, do Pica-Pau, Gasparzinho e seriados tipo Bonanza e Família Trapo.

Gosto de coisas mais ousadas também, como o jogo do Bayern metendo 8 x 0 no Hamburgo, ou os carinhas do esporte abrindo a 1ª rodada do Campeonato Brasileiro e colocando – ano após ano – o Cruzeiro e o Internacional como favoritos.

Ousadia também admirável é aquela do dr. House zuar com a cara de todo mundo – trocar o comprimido de tylenol por um de purgante – e ninguém lhe dar uma sonora porrada nas fuças. Outra admirável ousadia é alguém da redação do canal de notícias líder de audiência da tv paga colocar o lettering assim: “Deputado Eunício de Oliveira, presidente do Senado”... E repetir, no mesmo jornal, outras 3 ou 4 vezes. Isso é ousadia.

Mas o Grand Canyon, ainda que em escala reduzida, não. Isso não é ousadia. Já assisti a vários filmes de sacanagem – sem ter nada a ver com a previdência social, é bom deixar claro – em que moçoilos e moçoilas faziam trapézio, davam três mortais sem tirar, cangurus pernetas e outras acrobacias. E o conjunto da obra era, digamos, mais lúdico. Nem sempre tão mais encarquilhados ou preguilhados, porém de uma forma mais adequada, pois o roteiro te conduz ao caminho.

Acusada de maus tratos às retinas alheias, a distinta senhora de verde poderia descobrir logo a sua vocação. Se for algo mais sorumbático que assim seja, ou se resolver entrar no espírito congressual que o senador Romeiro Jucá definiu dias atrás como “suruba é suruba” e quem nesta entra deve estar preparado para tudo, que assim seja também. Afinal... fiofó é igual opinião: todo mundo tem e faz deste o que melhor lhe aprouver. Mas, por gentileza, se nos fizer algum favor, não precisa jogar na cara ok?