quinta-feira, 14 de maio de 2020

P´ra onde mesmo?

Pessoas andam depressa nas ruas. À distância parece-me que todas encaram um ponto fixo no horizonte. Não há olhares doces. Não há sorrisos no rosto. Não há vida querendo se transformar em alegria, somente o olhar perdido de uma paisagem lúgubre. Assim é São Paulo, a cidade que começa a retomar o vai-e-vem das ruas – ainda que a contragosto do sr. prefeito . E para onde vão todos? É possível que nenhum de nós saiba.

#DivagacionesDelEncierro

terça-feira, 21 de abril de 2020

A Data de Tiradentes

Num dia como hoje, em 1985 era anunciada a morte de Tancredo Neves.

Foi um domingo. Lembro-me que pela primeira vez na história do jornal o Diário do Grande ABC tirou uma edição de segunda-feira. Diversos jornalistas correram pra redação a fim de fazer uma edição especial. Eu, que cobri toda a agonia de Tancredo na porta do Hospital do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo (o Incor), estava entre esses.

Comentei com o então editor-chefe, dias antes: "Acho que o Tancredo já morreu. Aliás, tenho um palpite: ele morreu no domingo de Páscoa, 14, e só estão escolhendo o dia para anunciar. Aliás, 21 de abril é um dia magnânimo na História, vai daí que...". Mas de onde saiu isto? Quem confirmou? De seus 39 dias de agonia, com sete cirurgias, paradas cardíacas e procedimentos diversos no prontuário, Tancredo sofreu. Junto dele toda uma Nação, em agonia, pois que este representava um momento de esperança. A velha raposa -- que tinha sido um "primeiro-ministro" mal ajambrado na crise do governo Jango, 21 anos antes -- agora encarnava a esperança de um país a ser reconstruído politicamente.

Eu, Carlos Nascimento (Globo), Arnaldo Faria de Sá (Record), um chiliquento da Jovem Pan que não citarei o nome (porque já época se achava mais importante que a notícia...), e mais algns coleguinhas de Dipo, FSP e Estadão, entre outros, estávamos ávidos por notícias. Conversávamos com frequência, mas pouco adiantava para se descobrir novidades. De oficial só os boletins, do outro lado da rua, no Centro de Convenções, com o Brito fazendo as vezes de porta-voz do presidente eleito que não tinha sido empossado. A gente ali na porta, tentando ouvir fontes que chegavam ao hospital -- ou procurando informação fora daquele prédio -- e não se andava um milímetro. A dúvida era: o Tancredo está vivo ou não? Uma colega se vestiu de enfermeira e tentou furar o rigoroso bloqueio que se formou. Não deu certo. Ninguém tinha acesso à fonte primária e mesmo os mais ilustres políticos chegavam, no máximo, no andar em que ele estava. Outros, do baixo clero, nem isso. Faziam visitinha protocolar só para assinar o livro e dar entrevista na porta de um Incor chapado de jornalistas.

Assassinato, ainda em Brasília, era uma das hipóteses mais comentadas mas que pouco levamos a sério. Nestas épocas sempre surgem especulações mil. De reles briga de bar a abduções. Afastadas as teorias mirabolantes, a realidade é que a falta de notícia objetiva incomodava. Eu nunca confirmei, mas deixei a porta do Incor com a sensação de que o cadáver repousou no prédio pelo menos por uma semana. Até porque era preciso "preparar o povo" e, mais que isso, fechar o acordo político. Sarney tinha sido empossado, como vice eleito, mas Tancredo não tomou posse. E a questão político-jurídica era: José Sarney seria empossado, então como presidente (sem que o titular o fosse), ou se cancelaria esta eleição e devolveríamos a bola pro Congresso (que tinha derrotado Maluf, com 72,4% dos votos (480) contra 27,3% (180), registre-se. Veja, no google, o que foi o Colégio Eleitoral). Não, não era possível desmanchar a esperança, depois de 21 anos de verde-oliva na cadeira presidencial. Tinha de existir uma saída civil, ainda que fosse com o Sarney (lugar-tenente dos milicos, ao chefiar o PDS, partido de sustentação da ditadura). Jogavam-se as fichas no tabuleiro do Sarney que, por conta do acordão devidamente costurado pela velha raposa mineira, deveria ter a sensibilidade necessária de fazer a travessia. Sim, sabíamos que era um período de "transição democrática". Sentava-se ali um homem de terno, mas com uma camiseta verde-oliva por debaixo deste. E a transição foi feita. Ao fim do seu governo veio a primeira eleição direta desses novos tempos que Tancredo, espertamente, tinha batizado de "Nova República".

E o resto é história mais recente. O fato é que o 21 de abril de 1985 ficou marcado como mais uma data de altíssima importância na vida política do país. Hoje as pessoas nem lembram mais do que aconteceu outro dia, quanto mais de se aprofundar na história, mas intuitivamente eu continuo acreditando que a Data de Tiradentes é só dele mesmo. O conterrâneo de Joaquim José partiu uma Lua antes.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O Adeus a A. Plöger.

Existem notícias que destroçam a gente. Acabo de saber que morreu (ontem, no domingo de Páscoa) Alfried Plöger, presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas, conselheiro da Cia. Melhoramentos (onde construiu a sua carreira profissional) e colaborador do Depto. de Economia da Fiesp, entre outras atividades.

Economista, nasceu na Alemanha há 80 anos mas era brasileiro por opção. “Eu tenho passaporte verde”, orgulhava-se de dizer (antes do Mercosul era esta a cor do nosso passaporte). De voz forte, sempre marcando presença por onde passava, Plöger fará falta. Rigoroso no cumprimento do dever, sempre muito atento a prazos e horários, era um homem ativo e muito admirado por seus pares. Era tanto rigoroso como bem-humorado. Sabia temperar.

Dele ficam várias lembranças nos 15 anos em que convivemos. Em meu último dia de Abrasca, como prestador de serviços – 05 de março último – nos demos o último aperto de mão. Foi cordial e tb foi diferente. Que Deus o tenha e conforte a família.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Plurale - ESPECIAL CORONAVÍRUS - "Ressignificar é preciso"

Texto publicado no site de Plurale, em 08 de abril de 2020.

https://www.plurale.com.br/site/noticias-detalhes.php?cod=17506&codSecao=28

ESPECIAL CORONAVÍRUS - "Ressignificar é preciso"

Por Nélson Tucci, Colunista de Plurale

Recolhemo-nos à caverna. Ali seremos prisioneiros de nós mesmos. Ou daremos asas à imaginação, derrubando preconceitos (como ensina Platão em Mito da Caverna) e procurando ressignificar a vida. Com a devida licença poética, quero batucar livremente no teclado que se oferece à minha frente. Farei um cozido, digamos, platônico, para tentar quebrar o tédio de leitores encerrados no covil. E o faço não em homenagem a ele, mas é inevitável a lembrança do ministro que comparou jornalistas a cozinheiros. Cozinho, logo existo.

Voltemos à caverna. Há quem se aprofunde no diálogo, extraindo do individual o todo necessário para a transformação. Estes vão dedilhar paredes, sentir o chão, observar e tentar traduzir signos diversos. Haverão de enxergar muitas significâncias dentro de sí. Assim, as cousas externas terão novo sentido. É a ressignificação. Em nossa caverna (Platão diz que passamos a infância nela) haveremos de encontrar os apetrechos necessários para ir tecendo, fio a fio, algo que nos dê um norte. Não é crível nos autocondenarmos a viver na caverna; tampouco que a saída seja logo ali, pois que se assim fosse não mais haveria ninguém em seu útero.

Os mais rasos de percepção, entretanto, não tecem. E, por conseguinte, não param. Andam no retilíneo fixando-se em único ponto, objetificado na palma da mão – em busca do sinal perdido. Os primeiros buscam o elo, os últimos o sinal. A esses, a crença de que a terra é plana satisfaz, pois não será preciso subir montanhas, contornar o caminho e descer para se buscar novos impulsos.

Buscarão o sinal, no final do retilíneo. Passarão por curvas, rios, desafiarão a espeleologia mas não se darão conta, pois querem apenas um sinal (mágico !) que brotará na palma da mão. Até o dia em que travestidos de wi fi chegam os sons, o tão esperado sinal ao final do caminho. Mas o tempo passou e algumas revoluções nos ensinaram e nos consumiram. O tempo passou, célere, e aí já não se precisará mais dele.

Mais que tecer o fio é preciso buscar o norte. É ele que apontará a saída, natural, desse caos. É construindo o conhecimento dentro de cada um que haveremos de encontrar várias saídas. Eu me desafio a pensar que não deva existir uma única. É preciso ressignificar as paredes, o chão, o ar e a própria caverna. Haverá o tempo de deixarmos a vida uterina e partir para a transmarina.

(*) Nelson Tucci é jornalista, cozinheiro extremamente amador e colunista de Plurale.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Ressignificar é preciso

Por sugestão de minha nova amiga virtual, Marilu ( @MariluHerrera - advogada na Cidade do México), escrevo um post sustentado na hashtag #DivagacionesDelEncierro

Ressignificar é preciso

Recolhemo-nos à caverna. Ali seremos prisioneiros de nós mesmos. Ou daremos asas à imaginação, derrubando preconceitos (como ensina Platão em Mito da Caverna) e procurando ressignificar a vida.

Há quem se aprofunde no diálogo, extraindo do individual o todo necessário para a transformação. Estes vão dedilhar paredes, sentir o chão, observar e tentar traduzir. Haverão de enxergar muitas significâncias dentro de sí. Assim, as cousas externas terão novo sentido. É a ressignificação.

Os mais rasos de percepção, entretanto, não param. Andam no retilíneo fixando-se em único ponto, objetificado na palma da mão – em busca do sinal perdido. Os primeiros buscam o elo, os últimos o sinal. A esses, a crença de que a terra é plana satisfaz, pois não será preciso subir montanhas, contornar o caminho e descer para se buscar novos impulsos.

Buscarão o sinal, no final do retilíneo. Passarão por curvas, rios, desafiarão a espeleologia mas não se darão conta, pois querem apenas um sinal mágico que brotará na palma da mão. Até que travestidos de wi fi chegam os sons, o esperado sinal ao final do caminho. Mas o tempo passou, célere, e aí já não se precisará mais dele.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A comunicação pode tudo

(com a devida autorização da autora, a colega jornalista Franssinete Florenzano, do Pará)

A odontóloga Elsa Barros, que chefia a equipe de odontologia oncológica do Hospital Ophir Loyola, é um exemplo de tratamento humanizado na rede pública. No HOL muitos pacientes vão fazer o tratamento desacompanhados e não podem contar com a ajuda da família para ministrar a medicação, além do que a maioria é muito pobre, analfabeta e tem dificuldades físicas, até por conta da doença. Pois ela explica pacientemente como devem ser ministradas as doses, usa mímica e até desenha nas suas receitas um sol para melhor entendimento de que determinado remédio deve ser ingerido pela manhã, e uma lua e estrelas para marcar que o horário de outra dose é à noite. Gestos de carinho e gentileza que a fazem ser amada por todos.

Uma boa notícia é que já está implantada a laserterapia odontológica no SUS no Pará e no Hospital Ophir Loyola funciona muito bem, sob a coordenação da Dra. Elsa Barros. Esse tratamento reduz pela metade o tempo de cicatrização de feridas e lesões bucais causadas pelo câncer ou efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia, e também previne esses problemas, além de múltiplos benefícios para os tecidos irradiados, como ativação da microcirculação, produção de novos capilares, efeitos anti-inflamatórios e analgésicos, e estímulo ao crescimento. É totalmente indolor, não invasivo, eficaz e de rápida aplicação.

MEU COMENTÁRIO - O Brasil tem muitas caras, cheiros e sabores. Nem todos os cidadãos são pilantras. Dos que conheço arrisco dizer que a grande maioria é gente do bem e assim haveremos de continuar, feito formiguinhas, pra lá e pra cá, tornando este país ainda cheio de esperança.

VISITEM o BLOG https://uruatapera.blogspot.com/2019/12/a-comunicacao-pode-tudo.html

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Vida é substantiva, não aposto

ARTIGO publicado no site de Plurale, em 09.02.19

https://www.plurale.com.br/site/noticias-detalhes.php?cod=16649&codSecao=2

Vida é substantiva, não aposto

Quanta custa a indenização de uma propriedade destruída? O cálculo é trabalhoso, porém simples e factível. Agora vamos pensar em termos de patrimônio imaterial. Segundo a Unesco (em português - Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas), o Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes. Exemplos: O Círio de Nazaré, do Pará, o frevo pernambucano etc. Em termos monetários não dá pra calcular.

E o sonho? Quanto custa um sonho?

“Persegui a luz? / Mal segui-a, tendo / onde o sonho pus, / uma flor morrendo...” (Alphonsus de Guimaraens Filho). Esta citação de Tânia Du Bois, em seu blog, vem bem a calhar.

É possível mensurar o valor do sonho de Santos Dumont, materializando o desejo de o homem voar – ao longo de sua linha do tempo? Quanto de ideias, projeções, delírios e fantasias se gastou? Alguém consegue montar uma fiel equação sobre tudo o que passou pela cabeça de um menino de apenas 4 anos de idade, da sua preparação à primeira corrida de kart, em 1978, em Le Mans, na França? E desta estreia, aos 18 anos, até o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália, aos 34 anos, na fatídica corrida de 1994? Equipamentos esportivos à parte, como mensurar a quantidade de adrenalina produzida? E, ainda que isto fosse possível, qual o peso exato desta adrenalina no coração da pessoa em questão? E para a legião de fãs que Ayrton Senna conquistou? Para o país? Para o mundo?

Há coisas tangíveis em nossa vida. A priori, tudo o que se pode tocar é tangível – daí a expressão valor tangível, mensurando “a coisa”. Mas e aquilo que não é “coisa”, de que trata o substantivo feminino?

Quanto custa o sonho de um menino, louco por uma bola de futebol? E se esse menino nascer em Três Corações, no interior das Minas Gerais, for pra Bauru junto com os pais, e depois jogar em uma dos maiores times do país? E se, de quebra, esse menino der tão certo que será convocado pra Seleção Brasileira, ganhar o campeonato mundial de futebol e desabar em choro, em seus parcos 17 anos, no peito amigo do goleiro Gilmar? Como “monetizar” (palavra da moda) estas lágrimas? Como trazer “a valor presente” o que esse menino ainda haveria de ganhar vida afora? Afinal, como se calcula o valor tangível e o intangível de Pelé, que se transformou em algo muito além de um esportista?

Qual o valor do sonho de alguém que trabalhou 30, 40, 50, às vezes a vida inteirinha para, na velhice, conseguir um naco de terra no interior pra erguer uma casa com uma horta nos fundos, um jardim sempre florido a contemplar? Quanto custa o sonho de se montar uma pousada, em lugar bucólico, para saborear os últimos anos de sua vida – que se imagina sejam ainda suficientes para a purificação da alma e pacificação com a natureza?

Como é que se quantifica o sonho de um menino de rodar 2.000, 3.000 Km para jogar no time do Zico? Que sonhos passam pela cabeça de um gurizinho de 14, 15 anos, de vestir a camisa rubro-negra, ser aplaudido em um Maracanã lotado ou de ter a mesma sorte do Vinícius Jr e brilhar na Europa? Se não dá para calcular o sonho de um menino, tampouco multiplicar isto por 10.

Sonhos não são coisas. A vida precisa ser substantiva, não um aposto entre uma tragédia e outra, porque não é coisa que se compra. A vida só vale se os sonhos forem sustentáveis, ainda que imateriais.